invera foi ativado muito cedo. Isso geralmente é um indicador de que algum código no plugin ou tema está sendo executado muito cedo. As traduções devem ser carregadas na ação init ou mais tarde. Leia como Depurar o WordPress para mais informações. (Esta mensagem foi adicionada na versão 6.7.0.) in /var/www/wordpress/wp-includes/functions.php on line 6114A Jornada COP+ está rastreando as principais cadeias produtivas do Pará, dentro do Programa de Sociobioeconomia do projeto. O movimento coletivo pela transição justa na Amazônia Brasileira, liderado pela Federação das Indústrias do Estado do Pará (FIEPA), está criando plataforma digital que vai medir o valor da sociobioeconomia no estado. A plataforma servirá como um mapa das cadeias de produtores, associações, cooperativas e indústrias que compõem o ecossistema da sociobioeconomia do estado. Para divulgar estas iniciativas, criamos a série “Bio Valor: os caminhos da socioboeconomia no Pará”, com reportagens mensais em que abordaremos histórias e informações dos principais produtos da sociobioeconomia. Veja nessa reportagem iniciativas, desafios e soluções para a produção da castanha-do-pará no estado.
Uma panela de pressão de 30 litros, um fogão industrial, máquinas manuais de segunda mão e um forno a lenha. Esse era todo o material que o produtor Zeno Gemaque tinha quando começou a fazer o beneficiamento da castanha-do-Pará na cidade de Acará, nordeste do estado, há treze anos.
Zeno nasceu e cresceu na zona rural do município, às margens do Rio Acará, a cerca de 100 km de Belém, e começou a trabalhar com a castanha seguindo os passos do pai, que tinha uma pequena produção de castanheiras, da qual extraía o ouriço e vendia in natura para feiras e indústrias da região. Porém Zeno percebeu que a família podia ganhar mais dinheiro com outra etapa desse processo: o beneficiamento da castanha. “Naquela época o quilo da castanha in natura estava a 2 reais e 50 centavos e um sachê com 100 gramas dela processada já estava por volta de 8 reais no supermercado”, conta.
Com um investimento de R$2500 e sem acesso a máquinas industriais, Zeno criou a fábrica improvisada para beneficiar a castanha. “O secador rotativo não tinha, então secava ao sol. Fazia o processo do autoclave na panela de pressão, descascava nas máquinas manuais e desidratava num fogão a lenha. Foi assim que eu comecei em 2012 e a experiência deu certo”, relata Zeno.
Três anos depois, conseguiu formalizar a empresa, fundando a Zeno Nativo. Em seguida, comprou máquinas e reformou a pequena fábrica para ficar em padrão semi industrial. Hoje a castanha processada por Zeno é vendida no Mercado Ver-o-peso, empórios e moinhos da região, e também para outros estados como São Paulo, Maranhão e Ceará. “A gente consegue vender toda nossa produção. É um mercado bom, é um produto que se você tiver um bom produto é fácil de vender e você consegue vender bem”, explica o produtor.
Para ele, o problema não está no mercado e sim na cadeia. Zeno compra a castanha in natura de áreas nativas e preservadas de várias regiões do Pará, só que a oferta está cada vez mais instável, principalmente com as mudanças do clima. “Tem anos que dá uma safra boa, tem anos que dá ruim. Esse ano, por exemplo, a safra está muito escassa porque nos últimos tempos a estiagem tem sido muito alta e isso afeta diretamente na produção da castanha”, explica o produtor que também se mostra preocupado com o futuro da produção. “Ainda tem em abundância, mas no ritmo que estamos indo daqui a pouquinho não vai ter mais”, conclui.
Planta originária da Amazônia, a castanheira (Bertholletia excelsa) é uma das maiores espécies do bioma, podendo atingir até 50 metros de altura. A árvore dá frutos conhecidos como ouriços. Semelhantes a um coco, eles podem pesar até 2kg e possuir de 8 a 24 sementes. Os ouriços são quebrados e as sementes separadas e beneficiadas para serem comercializadas. Rica em selênio e outros nutrientes, a castanha-do-pará é recomendada por nutricionistas e ajuda a compor outros produtos como óleos e leites vegetais.
Estudos da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) mostram que a cadeia da castanha-do-pará no Brasil envolve mais de 60 mil famílias de povos e comunidades tradicionais, cerca de 100 organizações comunitárias, entre cooperativas, associações e agroindústrias, e aproximadamente 60 empresas de beneficiamento e comercialização nacionais. A demanda pelo produto no mercado global aumentou em 700% nos últimos 15 anos e essa produção movimenta de US$ 300 a US$ 400 milhões (R$ 1,5 a R$ 2,0 bilhões) por ano.
Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas (IBGE) mostram que em 2023, o Pará produziu 9.390 toneladas da semente, o que representa um valor superior a R$ 31 milhões em produção. O estado foi o terceiro maior produtor da castanha que leva seu nome, ficando atrás do Amazonas (11.291 toneladas) e do Acre (9.473 toneladas).
Pesquisas da Embrapa mostram que ao longo da história, os processos de ocupação e colonização da Amazônia, como aberturas de estrada, afetaram diretamente a plantação da castanha, fazendo com que o Pará deixasse de ser o principal produtor da semente. Só entre os anos de 1984 a 1997, 70% dos castanhais foram destruídos na região sudeste do Pará, segundo Alfredo Homma, pesquisador da Embrapa Amazônia Oriental e um dos principais estudiosos sobre o assunto. Atualmente, são os municípios de Óbidos, Oriximiná e Alenquer, todos no oeste paraense, os maiores produtores.
Homma explica que o plantio de castanhas não tem sido priorizado porque a produção demora a dar retorno, visto que a castanheira leva de 15 a 20 anos para chegar à fase adulta e só após esse tempo é possível extrair o ouriço. Mas que já existem tecnologias, inclusive na própria Embrapa, para produção de mudas com qualidade e com retorno mais rápido. “É preciso incentivar e popularizar o plantio e ter paciência, entendendo que é algo que vai gerar resultados a longo prazo. Num momento em que se discute a bioeconomia, é preciso pensar nos produtos que têm poder de mercado como a castanha, o bacuri, e o pau-rosa que é muito procurado para cosméticos, como sabonetes e perfumes”, destaca.
Para Homma, a castanha-do-pará tem as mesmas condições de chegar ao nível da castanha do caju. “Hoje a participação da castanha-do-Pará no mercado das castanhas não chega a 1% e é dezessete vezes menor que a da castanha de caju, mas isso pode ser igualado, se houver incentivo.”
O pesquisador defende a existência de programa de plantação de castanheiras em áreas de reserva legal e de preservação permanente que precisam ser recuperadas. “A castanha tem um grande mercado, o mundo inteiro conhece e gosta da castanha-do-Pará. Mas a oferta extrativista já chegou ao seu limite. Temos um passivo ambiental muito grande. Essas áreas podem ser usadas para a plantação de castanheiras. É preciso também um programa que incentive a criação de viveiro de mudas que possam ser distribuídas gratuitamente ou vendidas a preço de custo”, destaca.
A castanha-do-pará ganhou esse nome entre o século XVIII e XIX, batizada pelos visitantes da Amazônia. Além de ser produzida no estado, era dos portos paraenses que a castanha era exportada ainda in natura, principalmente a partir da década de 1920, como uma forma de substituir a cadeia da borracha.
Hoje, a produção da castanha-do-pará se concentra em três países da Amazônia: Bolívia, Brasil e Peru. Em 2023, o Brasil produziu 35.351 toneladas do produto, de acordo com o IBGE. O país é o segundo maior produtor mundial, ficando atrás da Bolívia, que também detém a maior parte do mercado internacional.
Empresas paraenses tradicionais no beneficiamento do produto tentam se reposicionar no mercado internacional. É o caso da Mutran Exportadora, empresa familiar com mais de 50 anos de história no setor. Assim como a trajetória de Zeno, na família Mutran a produção da castanha também foi repassada entre gerações. Começou com o plantio de castanhais em Marabá, no sudeste do Pará, depois passou para o beneficiamento com a aquisição de usina de processamento no bairro da Pratinha, em Belém.
Inicialmente o foco era apenas a exportação, mas a mudança no mercado internacional exigiu novas estratégias. “A partir dos anos 1990/2000, a Bolívia passou a dominar o mercado internacional, tendo passado por um processo de modernização e mecanização do processamento duas décadas antes das empresas brasileiras. Isso fez com que perdêssemos a relevância no mercado internacional e passássemos a vender quase que a totalidade da nossa produção no mercado nacional brasileiro. Por sorte, esse período coincidiu com o aumento no consumo da castanha nacionalmente e com a sua utilização cada vez maior como ingrediente em produtos da indústria alimentícia”, conta Victória Mutran, diretora da exportadora. Hoje, a castanha beneficiada pela empresa vira insumo para pães, doces, barras de cereais, granolas, entre outros produtos.
Em 2024, a empresa processou mais de 5.000 toneladas de Castanha do Pará in natura, gerando mais de 1.500 toneladas de produto acabado. Quarenta por cento dessa produção foi exportada para países da América, da Europa e da Ásia. “Nossa presença nas exportações tem aumentado à medida que aumentamos a nossa produção anual. Ao longo dos anos, também tivemos grande aumento nas exigências de controle de qualidade e segurança de alimentos e a necessidade de obter certificações internacionais para abrir portas de grandes indústrias e mercados mais exigentes”, destaca Mutran.
A redução na disponibilidade de castanhas no sudeste do Pará também impactou a produção e a indústria precisou buscar outros fornecedores em outras regiões do estado e também no Amazonas, Roraima e Acre. Mas os desafios da cadeia ainda são muitos. “A castanha demanda grande esforço financeiro e logístico para sair das áreas de mata mais densas e chegar até Belém para só depois serem processadas e comercializadas para o Brasil e para o mundo”, afirma Victória.
No Pará, a partir do reaproveitamento de matérias-primas utilizadas nos processos produtivos, as indústrias locais têm buscado novos caminhos para superar desafios em consonância com o meio ambiente. É o caso da Madeireira Ebata, que utiliza madeira extraída do Manejo Florestal Sustentável como insumo para a geração de energia limpa. O caminho que a Madeireira Ebata percorre é o mesmo de muitas outras empresas que enxergaram, no reaproveitamento de matérias-primas, fontes alternativas de energia para manter sustentáveis as suas operações.
Segundo o diretor da Ebata, Leônidas Dahás, o projeto da empresa foi concebido com o objetivo de otimizar o resíduo industrial gerado na fábrica, localizada no Distrito Industrial de Icoaraci, em Belém. “Todas as empresas estão buscando alternativas para reaproveitar seus resíduos industriais. Então, investimos na geração de energia através da queima da biomassa de sobra da madeira que resulta do processo de fabricação de decks e assoalhos”, explica Leônidas. Para o empresário, o Brasil pode ser exemplo de produção sustentável de madeira, por meio das técnicas de extração de impacto reduzido desenvolvidas pelo Instituto das Concessões Florestais. Essas técnicas possibilitam a rastreabilidade da madeira através de todo o processo industrial, abrindo portas para que o resíduo gerado nas serrarias possa ser utilizado para geração de energia.
Para o empresário, o Brasil pode ser exemplo de produção sustentável de madeira, por meio das técnicas de extração de impacto reduzido desenvolvidas pelo Instituto das Concessões Florestais. Essas técnicas possibilitam a rastreabilidade da madeira através de todo o processo industrial, abrindo portas para que o resíduo gerado nas serrarias possa ser utilizado para geração de energia.
Outra iniciativa que também está em andamento é o estudo para uso do caroço de açaí como biomassa. A Alunorte acredita que o caroço do açaí, quando misturado ao carvão mineral, poderá ser usado como combustível nas caldeiras da refinaria. O estudo está sendo realizado em parceria com a Faculdade de Engenharia Mecânica da Universidade Federal do Pará (UFPA), com duração de um ano e investimento de cerca de R$ 500 mil.
Assim como a Ebata, a Alunorte, maior refinaria de alumina fora da China, decidiu fazer uma mudança da matriz energética e colocou para operar a primeira caldeira elétrica com tecnologia mais moderna e com maior capacidade. O investimento foi de aproximadamente R$ 42 milhões. A capacidade nominal de geração da nova caldeira é de aproximadamente 95 toneladas de vapor por hora, consumindo 60 megawatts e com potencial para redução na ordem de 100 mil toneladas de CO2 por ano. O projeto foi executado em cerca de 20 meses.
Com resultados positivos, outras duas caldeiras estão em fase de projeto com expectativa de iniciar a operação em 2024. Essa nova matriz energética na Alunorte é um capacitador-chave da estratégia climática global da Hydro. Além disso, a empresa também está em fase de construção do projeto de substituição do óleo combustível por gás natural na refinaria. Em 2021, a Hydro anunciou o investimento de R$ 1,3 bilhão em um projeto de implementação do gás natural liquefeito (GNL) na Alunorte. O contrato foi assinado com a New Fortress Energy (NFE) com o objetivo de receber fornecimento de GN por 15 anos.
Em Marituba, a Guamá Tratamento de Resíduos investiu R$ 4 milhões para a instalação e funcionamento de uma usina de biogás no aterro sanitário que atende a Região Metropolitana de Belém. Desde dezembro de 2021, o empreendimento conta com uma rede coletora de gases, instalada para captar o gás metano gerado durante o tratamento de resíduos e direcioná-lo até um espaço enclausurado para o aproveitamento.
O biogás de aterros sanitários, gerado pela decomposição de matéria orgânica em ambiente sem a presença de oxigênio, possui como principais componentes o dióxido de carbono e o metano. Este último é um gás de efeito estufa, que influencia as mudanças climáticas em todo o planeta. O sistema de tratamento de biogás instalado na empresa visa reverter o quadro poluente.
“Tratar o gás que é gerado traz ganhos ambientais na medida em que transforma o metano em água e gás carbônico. Esses produtos reduzem o impacto na camada de ozônio ao minimizar em até 25 vezes as emissões de carbono na atmosfera”, explica o diretor regional da Guamá Tratamento de Resíduos, José Reginaldo Bezerra. No aterro sanitário de Marituba, esse processo também reduz consideravelmente a emissão dos odores característicos da atividade.
Além dos benefícios climáticos, o gás metano é fonte de energia elétrica limpa e renovável. Por isso, até o final de 2022, a empresa planeja a instalação de uma usina termoelétrica que produzirá cerca de dois megawatts por hora. A energia será consumida dentro do próprio aterro. “Transformar em benefícios ambientais e energéticos algo que muitos veem como transtorno significa aproveitar ao máximo todas as possibilidades para que o aterro sanitário vá além da sua atividade fim, que é o tratamento de resíduos com excelência. Representa um passo à frente na perspectiva da sustentabilidade”, destaca Reginaldo Bezerra.